🌵 Um mar pode virar deserto e depois virar floresta?

Onde um dia navegaram barcos de pesca, hoje o vento levanta sal e poeira tóxica. A solução encontrada para conter esse desastre é mais estranha do que parece. ⬇️

O Mar de Aral já foi o quarto maior lago do planeta. Hoje, boa parte dele é um deserto salgado, criado por uma decisão da União Soviética nos anos 60. O Uzbequistão decidiu não esperar a natureza reverter o estrago sozinha. Espalhou pelo antigo leito um arbusto capaz de sobreviver quase sem água, e já cobriu 1,7 milhão de hectares.

Por que a União Soviética secou o Mar de Aral?

Nos anos 60, engenheiros soviéticos desviaram os rios Amu Daria e Sir Daria para irrigar plantações de algodão em pleno deserto da Ásia Central. Os dois rios alimentavam o Mar de Aral havia milhares de anos. Sem essa água doce, a evaporação natural venceu e o lago perdeu mais de 90% da sua superfície em poucas décadas.

O fundo exposto virou o deserto de Aralkum, uma das áreas mais jovens do planeta em termos geológicos. O solo concentra sal e resíduos de pesticidas usados nas lavouras de algodão por décadas. Quando o vento sopra forte, ele levanta tempestades tóxicas que cruzam fronteiras e afetam vários países vizinhos.

O arbusto que sobrevive no sal e recupera o Mar de Aral - Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)

Como o arbusto saxaul resiste ao solo salgado do deserto?

O saxaul (Haloxylon) resiste ao solo salgado graças a raízes profundas e uma tolerância rara à seca, típica de arbustos nativos da Ásia Central. Ele não reconstrói o ecossistema aquático que existia antes; sua função é fixar o solo para o vento não levantar sal e poeira tóxica.

- Raízes longas que prendem o solo e travam o avanço do sal e da poeira;

- Sobrevivência com chuva quase inexistente, mesmo com mais de 42°C no verão;

- Crescimento em forma de arbusto aberto, não de floresta densa e fechada;

Nenhum projeto de plantio devolve água a um lago que praticamente desapareceu. A missão do saxaul é outra: conter o avanço do deserto, não recriar o mar que existia antes dele.

Plantar em um solo tão hostil, porém, está longe de ser simples. Pesquisadores testaram métodos diferentes até encontrar uma combinação capaz de elevar bastante a sobrevivência das mudas.

Do fracasso ao sucesso: como o plantio evoluiu

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Semeadura direta

Taxa de sobrevivência entre 20% e 30% no solo salino extremo do leito seco.

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Mudas em recipiente

Sobrevivência salta para até 78% em parcelas-piloto com mudas mais fortes.

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Poços de até 500 metros

Garantem água nos primeiros anos e já atraem aves de volta à região.

Dados de projetos-piloto apoiados por fundos ambientais japoneses e pela Universidade de Kioto.

Quantos hectares do Aralkum já foram cobertos pelo saxaul?

Cerca de 1,7 milhão de hectares do antigo leito do Mar de Aral já foram cobertos com saxaul e outras espécies tolerantes ao sal. O tamarisco é uma delas. O plantio integra um esforço regional maior de restauração de terras degradadas na Ásia Central.

Quem financia a recuperação das terras do Uzbequistão?

O Banco Mundial financia boa parte do esforço, através do programa RESILAND CA+. O programa é considerado o maior projeto de restauração de ecossistemas da Ásia Central.

- RESILAND CA+ atua nos cinco países da região e é a maior iniciativa do tipo em curso;

- O braço uzbeque do programa mobiliza 153 milhões de dólares para estabilizar solos degradados;

- A meta inclui reduzir tempestades de poeira em Karacalpaquistão, a república mais afetada pelo desaparecimento do mar;

Os números já aparecem nas estatísticas regionais. O Uzbequistão registrou a maior queda proporcional de terras degradadas de toda a Ásia Central. O índice caiu de cerca de 30% para 25% do território em poucos anos.

O Mar de Aral pode voltar a existir algum dia?

Praticamente não, ao menos não como o lago que existiu até os anos 60. A porção uzbeque do antigo mar é considerada, na prática, irrecuperável como corpo d'água. Do lado do Cazaquistão, uma represa já trouxe de volta uma fração pequena do extremo norte. O que o saxaul oferece é mais modesto. Ele contém o avanço do sal e devolve um pouco de vida a um deserto antes completamente estéril.

Se um dia você visitar a Ásia Central, vale reparar nessas paisagens em transformação. Elas contam uma história rara sobre como remendar, aos poucos, um erro do tamanho de um mar.