🦉 Um bairro inesperado no meio do deserto

Painéis solares, areia quente e um berçário de aves selvagens no meio do nada. Uma fazenda de energia no Arizona virou lar de dezenas de filhotes que ninguém esperava encontrar ali. ⬇️

No deserto do Arizona, uma fazenda solar transformou parte do seu terreno em um refúgio improvável para a coruja-buraqueira. A espécie prefere cavar tocas no solo em vez de construir ninhos em árvores. Por isso, passou a ocupar túneis artificiais instalados entre fileiras de painéis fotovoltaicos. Em pouco tempo, o projeto de energia limpa também virou um experimento sobre a convivência entre fauna selvagem e infraestrutura industrial. Pesquisadores acompanham de perto cada etapa dessa adaptação, curiosos para entender se o modelo pode se repetir em outras regiões do país.

Por que as corujas escolheram morar sob os painéis solares?

Os pequenos predadores buscam espaço aberto e fácil acesso a insetos e roedores, sua principal fonte de alimento. O terreno raso sob os painéis permite enxergar predadores à distância, uma vantagem e tanto para quem vive rente ao chão. Biólogos da organização Wild at Heart notaram que a iluminação instalada no local atrai insetos à noite, o que facilita a caça das aves. A fazenda pertence à Longroad Energy, que decidiu reservar parte do terreno só para as aves.

Como painéis solares viraram refúgio para corujas no deserto - Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)

O que torna a coruja-buraqueira um animal tão diferente?

Poucas aves de rapina rompem tanto com o esperado quanto essa espécie. Conheça algumas características que tornam as corujinhas únicas entre as aves de rapina:

- Vive dentro de tocas no chão, em vez de ninhos em árvores ou fendas de rochas

- É ativa também durante o dia, diferente da maioria das corujas noturnas

- Mede entre 19 e 25 centímetros, tamanho próximo ao de uma lata de refrigerante

- Costuma ocupar buracos abandonados por roedores, já que raramente cava as próprias tocas

- Balança o corpo para cima e para baixo quando se sente ameaçada

A convivência entre os animais e a usina não aconteceu por acaso. Veja a seguir como funcionou, na prática, o processo de acolhimento das aves.

🏜️ Do resgate ao primeiro voo

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Levantamento

Vistoria obrigatória identificou as corujas antes do início das obras, conforme a lei do Arizona

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Realocação

Nove casais e um macho solteiro percorreram cerca de 80 km até o novo terreno reservado

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Resultado

Todas as fêmeas realocadas puseram ovos poucas semanas depois da soltura

Fonte: Wild at Heart e Longroad Energy, parceiros do projeto Sun Streams

Como a parceria com a fazenda solar ajuda a espécie?

O convênio entre a organização e a Longroad Energy trouxe ganhos que vão além do simples abrigo. Estes são alguns dos benefícios observados até agora:

- Mais de trinta tocas artificiais espalhadas por uma área de cerca de cem hectares

- Câmeras que monitoram a reprodução e a sobrevivência dos filhotes o ano todo

- Iluminação noturna que atrai insetos e complementa a dieta natural das aves

- Vegetação irrigada nas proximidades, criada para atrair borboletas e gafanhotos

Quais desafios a coruja-buraqueira ainda enfrenta no país?

Apesar do sucesso no Arizona, a espécie segue vulnerável em boa parte dos Estados Unidos. Segundo o Serviço de Peixe e Vida Selvagem dos Estados Unidos, a perda de habitat é a principal causa do declínio populacional nas últimas décadas. O órgão também aponta que o controle de roedores subterrâneos, como cães-da-pradaria, reduz o número de tocas naturais disponíveis. Por isso, iniciativas como a do Arizona ganham peso como alternativa de conservação em áreas já urbanizadas. Em alguns estados, como Minnesota, a situação é ainda mais delicada, com a espécie listada como ameaçada.

O que esse experimento no Arizona ensina sobre conservação?

O caso da fazenda Sun Streams mostra que projetos de energia limpa podem reservar espaço para a vida selvagem sem abrir mão da produção. Os números falam por si, dezenas de filhotes nasceram onde antes havia apenas deserto vazio. Talvez a lição mais simples seja também a mais poderosa: dividir espaço custa pouco e rende muito. Se o modelo funcionar em outras fazendas solares, a coruja-buraqueira pode ganhar um aliado inesperado na luta contra a perda de habitat.

Da próxima vez que você passar perto de um parque solar, vale parar um instante e imaginar quem mais pode estar morando ali embaixo.