De longe, uma rua asfaltada, iluminada e com carros circulando pode parecer completa. A experiência muda quando o pedestre encontra degraus, buracos, postes ou nenhuma rampa. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ampliou o retrato urbano no Censo 2022, incluindo aspectos diretamente ligados ao pedestre.
O que o Censo passou a enxergar nas ruas brasileiras?
O Censo 2022 manteve a observação de calçadas e rampas e acrescentou um detalhe decisivo: a presença de obstáculos sobre o passeio. Segundo o IBGE, também entraram como novidades o ponto de ônibus ou van e a sinalização para bicicletas. Em 2010, o instituto já observava iluminação, pavimentação, calçada e rampa para cadeirante.
Assim, o levantamento passou a separar melhor a existência da infraestrutura de sua utilidade cotidiana. Agentes supervisores percorreram mais de 340 mil setores com características urbanas antes da coleta domiciliar, e os recenseadores puderam ajustar informações depois, quando necessário. Portanto, a pesquisa combinou observação direta do espaço público com a estrutura operacional do Censo, em vez de depender apenas das respostas dos moradores.
🏛️ 2010: O Censo registra calçada e rampa no entorno urbano.
🌿 2022: Obstáculos na calçada entram entre os novos quesitos.
🚀 2025: O IBGE divulga os resultados nacionais do entorno.
Asfalto e iluminação contam apenas parte da história
A pista pode estar completa enquanto o caminho do pedestre permanece fragmentado - Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)
Os números mostram por que uma rua aparentemente completa pode oferecer uma experiência muito diferente para quem anda a pé. Em 2022, 88,5% dos moradores pesquisados viviam em vias pavimentadas; 97,5% estavam em vias com iluminação pública, segundo o IBGE. Isso representava cerca de 154,1 milhões e 169,7 milhões de moradores, respectivamente, mas não media continuidade, conforto nem acessibilidade do percurso a pé.
Porém, esses percentuais elevados não significam, sozinhos, que o caminho ofereça passagem contínua, confortável e acessível para diferentes pedestres. Na Pesquisa Urbanística do Entorno dos Domicílios, o instituto observou dez quesitos, incluindo calçada, obstáculo, rampa, arborização e bueiro ou boca de lobo. Dessa forma, o retrato incorpora condições percebidas pelo pedestre em setores urbanos selecionados, sem representar toda a população de cada município brasileiro.
Quase metade das faces pesquisadas registrou obstáculos
Nas calçadas brasileiras, o contraste aparece com força. O IBGE identificou calçada ou passeio em 68,5% das faces pesquisadas, enquanto 49,1% apresentavam obstáculos e apenas 12,3% tinham rampa para cadeirante. O instrumento só avaliava obstáculo e rampa após registrar uma calçada, independentemente de seu estado de conservação, funcionamento ou eficácia.
Além da simples presença do passeio, o instituto considerou barreiras que dificultam ou impedem a circulação. Por isso, uma calçada contabilizada pode exigir desvios ou passagens apertadas, especialmente de idosos, crianças, gestantes e pessoas com mobilidade reduzida.
- Vegetação: árvores, arbustos ou galhos podem invadir a faixa destinada à passagem dos pedestres e reduzir o espaço disponível.
- Equipamentos urbanos: caixas de correio, postes de iluminação e placas mal posicionadas entram entre os exemplos considerados pelo instituto.
- Pavimento: buracos, desníveis e calçadas quebradas podem transformar um passeio existente em um percurso difícil ou descontínuo.
- Acessos de veículos: entradas irregulares para estacionamento e rampas veiculares também podem criar diferenças de nível no caminho de quem anda.
Por que a leitura do entorno muda a ideia de infraestrutura?
Ela muda porque aproxima a infraestrutura urbana do uso real do espaço público por pessoas com diferentes formas de mobilidade e necessidades de acessibilidade. Conforme o IBGE Educa, 84,0% dos moradores pesquisados viviam em vias com calçada ou passeio nas áreas consideradas pelo levantamento. Porém, somente 18,8% estavam em vias com calçadas livres de obstáculos, uma diferença expressiva que o asfalto ou a iluminação não conseguem mostrar.
Ao mesmo tempo, 119,9 milhões de moradores das áreas pesquisadas, ou 68,8%, viviam em vias sem rampa para cadeirante. Em 2010, o Censo já registrava calçadas e rampas, mas 2022 acrescentou a observação dos obstáculos. Assim, o dado mostra que ter uma estrutura não equivale automaticamente a poder usá-la com facilidade, sem criar uma nota geral de caminhabilidade.
Indicador
Leitura urbana
Via pavimentada
Mostra o revestimento da via, mas não descreve a continuidade ou a acessibilidade da calçada.
Calçada, obstáculo e rampa
Mostram se o espaço do pedestre existe e se barreiras ou recursos de acessibilidade aparecem no percurso.
Uma cidade se entende também a pé
Os dados do entorno mostram uma camada urbana invisível quando a análise observa apenas carros, asfalto e postes de luz. Calçadas contínuas, menos obstáculos e rampas ajudam a explicar como diferentes pessoas usam a mesma rua, sem criar um índice de caminhabilidade. Por isso, ao caminhar pelo seu bairro, observe não somente o pavimento, mas também o caminho reservado ao pedestre. Na próxima volta, experimente olhar a rua na altura dos pés e comparar o que existe com o que realmente funciona.
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