Demétrio Vecchioli

Contrato foi firmado durante gestão de advogado que tem relação próxima com dono da principal beneficiária da regulação estadual

Demétrio Vecchioli

22/10/2026 10:00

Rafaela Felicciano/Metrópoles
A Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj) tenta, há cerca de três meses, rescindir o contrato firmado pela gestão Cláudio Castro (PL) e que deu à RioPag, de Willer Tomaz, o monopólio da intermediação de pagamentos entre apostadores e bets no estado. O contrato já rendeu à empresa do advogado mais de R$ 188 milhões em três anos.
A coluna revelou uma decisão administrativa, há um mês, pela qual a Loterj rescindiu o contrato unilateralmente, considerando que a RioPag descumpriu diversas cláusulas contratuais. Dias depois, a empresa conseguiu uma liminar na 14ª Vara da Fazenda Pública da Comarca da Capital.
O processo corre em segredo de Justiça, mas a coluna apurou que a decisão da juíza Neusa Regina Larsen de Alvarenga Leite não impede a rescisão unilateral, apenas determina que o fim do contrato não pode ocorrer de forma abrupta, gerando risco para casas de apostas, apostadores e a própria Loterj.
A Loterj recorreu e até aqui não teve resposta, o que tem gerado incômodo na autarquia. O temor é que a Justiça postergue qualquer decisão e uma nova diretoria da Loterj, sob gestão de Douglas Ruas (PL), opte por manter um contrato que já se mostrou prejudicial ao estado – casas como a Blaze justificaram o desinteresse na licença carioca por causa do “custo RioPag”.
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A coluna vem mostrando que a maior beneficiada pela criação de uma licença estadual para apostas online no Rio de Janeiro é a RioPag, de Willer Tomaz. A intermediária tem o monopólio do serviço com direito – garantido em contrato – de cobrar uma taxa de 2,5% de cada depósito feito por PIX e 1,0% de cada retirada.
Em um setor de margens relativamente estreitas, essas taxas geram à RioPag mais dinheiro do que o estado arrecada (ou arrecadava) em impostos com as apostas. As taxas são tão abusivas que tornaram mais caro para uma bet operar com a licença do Rio (que cobra alíquotas bem mais baixas) do que com a da União, afastando interessadas.
Agora, a PF investiga as relações entre Cláudio Castro, Hazenclever Cançado (presidente da Loterj até este ano) e Willer Tomaz. Já descobriu, segundo O Globo, que os dois últimos tinham “atividade profissional conjunta e proximidade pessoal”.
Willer e Hazenclever atuaram juntos enquanto advogados, conforme mostramos na coluna, e agora a PF descobriu que o presidente da Loterj (que concorreu a deputado federal pelo PL de Flávio Bolsonaro) teve viagens bancadas por Willer (que também bancou diversas viagens para Flávio).
As relações não param por aí. Uma empresa de Willer, a Rede Loto, foi a primeira credenciada pela Loterj e teve sua documentação aprovada menos de 12h depois de aberto o credenciamento. Essa empresa pertence a uma holding de Willer que tinha Flávio como “usuário master” de sua conta bancária.
Só em 2025, a empresa “mãe” da RioPag (dona da dona da intermediadora) pagou R$ 67 milhões em dividendos para Willer Tomaz, que por sua vez bancou diversas despesas de Flávio Bolsonaro, como viagens à exterior.
Já o estado ficou sem ver a porcentagem que lhe cabia na arrecadação da RioPag porque, sem qualquer justificativa, Hazenclever determinou que a empresa deixasse de pagar o estado e custodiasse o dinheiro público. Quando a nova gestão da Loterj pediu a grana de volta, Willer não respondeu. Depois, sugeriu parcelar e, enfim, disse que os recursos estavam investidos, sem dizer onde.
A Loterj conseguiu o bloqueio das contas bancárias da RioPag e não achou o dinheiro. No mesmo dia, a empresa fez um PIX de R$ 16 milhões, quatro milhões a menos do que a Loterj alega que deveria ser pago, considerando também correção monetária. A RioPag contesta e quer ficar com os rendimentos do dinheiro do estado, alegando que encerrou o suposto investimento a mando da própria Loterj.
O que dizem os envolvidos
Hazenclever não respondeu as tentativas de contato da coluna e a Loterj disse que não comentaria. Já Willer Tomaz enviou a seguinte nota:
“O advogado Willer Tomaz esclarece que a Justiça não está demorando: já decidiu. A Rio Pag obteve tutela que mantém o vínculo em vigor, diante da rescisão unilateral, abusiva e irregular promovida pela Loterj, que recorreu da decisão.
Longe de lesar os cofres públicos, o contrato assegura ao Estado a maior comissão de todo o mercado regulado de apostas, percentual superior, inclusive, ao que a autarquia pretendia firmar em caráter emergencial, com dispensa de licitação.
Willer não participou do certame que resultou na contratação da Rio Pag nem tinha qualquer ligação com a empresa à época, à qual hoje presta apenas serviços jurídicos, sem integrar a gestão de nenhuma das companhias envolvidas. Com Hazenclever Lopes Cançado, o contato é estritamente profissional: o ex-dirigente já atuou em processos em parceria com o escritório.”


