Política / Eleições 2026

Dos atos pró-Lula aos 'bloquinhos' bolsonaristas: manifestações mudam de cara, mas será que ajudam a virar voto?
Dos atos pró-Lula aos 'bloquinhos' bolsonaristas: manifestações mudam de cara, mas será que ajudam a virar voto? · Imagem: Source: oglobo.globo.com

Cienstistas políticos veem potencial contra abstenção neste segundo turno

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Manifestações de apoiadores de Lula e de Flávio Bolsonaro — Foto: Gabriel de Paiva e Reprodução

Manifestações com apoiadores tanto do presidente Lula, que disputa a reeleição, quanto do candidato do PL ao Palácio do Planalto, Flávio Bolsonaro, têm se transformado nessas eleições. A esquerda, que teve dificuldade para levar a militância para as ruas nos últimos anos, tem conseguido, no segundo turno, atrair público para atos em apoio ao petista organizados por integrantes do movimento estudantil com a adesão de artistas. Já a direita divide as agendas entre as tradicionais “motociatas”, iniciadas pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, e os “Bloquinhos do 22”, puxados pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG).

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Nas últimas semanas, a esquerda tem predominado nas ruas. No fim de semana, apoiadores de Lula se reunirem na Praia de Copacabana, na Zona Sul do Rio, onde se alternaram no microfone secundaristas e estudantes de universidades federais em discursos contra Flávio. O grupo entoou gritos contra o senador, além de músicas como “vai dar PT” e jingles. Também participaram da manifestação pernaltas, músicos com instrumentos usados nos blocos de carnaval carioca e estandartes com mensagens de apoio a Lula, que se misturavam com bandeiras do PT e cartazes. No final do dia, o público se reuniu nos Arcos da Lapa, no Centro, na manifestação “O samba não se cala”, que reuniu baterias de escolas e rodas de samba, carnavalescos e artistas como Neguinho da Beija-Flor, Diogo Nogueira e Teresa Cristina, que se apresentaram no palco.

O apoio desses artistas a Lula tenta fazer frente ao aval de músicos de outros gêneros, como o sertanejo, a Flávio. O senador foi alvo de uma representação protocolada pelo PT no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que o acusou de ter participado de um “showmício” no Festival de Barretos. A prática, que se caracteriza pela união de apresentações musicais e discursos em prol de candidaturas, é proibida pela legislação eleitoral. Além da presença nos eventos que reuniram apoiadores ligados ao agronegócio, percorridos também pelo pai em 2018 e 2022, Flávio reuniu eleitores em motociatas nos principais colégios eleitorais. A campanha decidiu intensificar a presença na reta final em caminhadas e comícios, renomeados como “Bloquinho do 22”. Eventos do tipo, que contam com discursos de lideranças bolsonaristas e são embalados por jingles contra o PT, foram planejados por Nikolas Ferreira em Minas Gerais ainda no primeiro turno e tendem a percorrer outros estados nas próximas semanas.

Foco na abstenção

Um desses locais será a Avenida Paulista, tradicionalmente usada para atos bolsonaristas, mas ocupada por apoiadores de Lula no último domingo. Assim como no Rio, a manifestação foi organizada pela União Nacional dos Estudantes (UNE) e por centros acadêmicos universitários. Na véspera, Lula confirmou a presença. Ao se dirigir ao público, o presidente pediu que a militância se concentre na conversa com os eleitores que não compareceram às urnas no primeiro turno.

Mesmo que indiretamente, a mobilização nas ruas ajudou a cumprir esse objetivo, afirma Lincoln Secco, professor de História da Universidade de São Paulo (USP) e autor da biografia “História do PT”. Ele considera que, apesar de as manifestações não mudarem a opinião de eleitores que decidiram apoiar Flávio, conseguem gerar imagens a serem usadas pela campanha petista e que podem gerar a sensação de que “a sociedade está reagindo”, alimentando o movimento de “vira-voto”:

— O movimento das ruas não muda o voto bolsonarista, mas motiva o eleitor petista que pensa em não votar, o indeciso ou aquele que tem medo do bolsonarismo, porque dá a sensação de que o PT tem força para virar o jogo. O inimigo da esquerda é o tempo. Ela terá que manter a mobilização com força porque faltam poucos dias para o segundo turno.

O especialista considera que as mobilizações do final de semana “surpreenderam pelo número e pelo caráter espontâneo”, pontuando que reuniões do campo progressista nessa proporção não acontecem desde 1984, nas Diretas Já. Participante das mobilizações daquele período, Rudá Ricci, cientista político, sociólogo e presidente do Instituto Cultiva também enxerga similaridade desses episódios com os atos do final de semana, em meio a uma tentativa de virada de página da esquerda e busca por protagonismo depois dos resultados do primeiro turno.

— Do jeito que essa eleição estava indo, indicava que o Lula sairia derrotado politicamente se ganhasse ou perdesse nas urnas. Agora, essas mobilizações voltam a colocar o lulismo e o PT no centro da política nacional, algo que já não acontecia há anos — disse Ricci.

Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenador do Observatório Político e Eleitoral (OPEL), o cientista político Josué Medeiros considera que os atos do final de semana conseguiram mudar “a agenda” da eleição, antes mais favorável a Flávio, mesmo sem terem sido planejados diretamente pela campanha lulista.

— A campanha, obviamente, depois se conectou com isso e passou a estimular esses atos, mas eles foram um processo mais espontâneo e orgânico do que dirigido pela campanha, tanto nas ruas quanto nas redes. O Flávio também contribuiu com isso, porque subiu no salto alto e começou a falar de governo — disse o cientista político da UFRJ.

‘Dentro da bolha’

Apesar disso, Medeiros e Ricci ressaltam que essas manifestações tendem a engajar mais eleitores “dentro da bolha” de esquerda. Uma demonstração da capacidade de mobilização de Lula e do PT, no entanto, era necessária para motivar a militância, diz o cientista político Leandro Gabiati, diretor da consultoria Dominium.

— Os atos do final de semana são positivos para Lula, que se vê obrigado a mostrar uma reação depois do primeiro turno. Manifestações desse tipo tendem, inicialmente, a reforçar a identidade política dos participantes, aumentar o engajamento da militância e estimular a participação eleitoral. Lula está precisando ter essa reação e criar um clima pró-virada, não só com manifestações, mas também com ações do governo e ajustes na campanha eleitoral — disse Gabiati.

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