Rio Branco venceu a Série A-4 em 2024

Marcos Senna fala sobre como foi fazer parte de geração vitoriosa da Espanha
Marcos Senna fala sobre como foi fazer parte de geração vitoriosa da Espanha · Imagem: Source: ge.globo.com

Na Copa do Mundo de 2006, o Rio Branco tinha três atletas formados em suas categorias de base defendendo três seleções diferentes: Mineiro (Brasil), Zinha (México) e Marcos Senna (Espanha). Um feito e tanto para um clube do interior de São Paulo que, naquele momento, vivia o ocaso de seu período mais glorioso.

Mineiro, autor do gol do título mundial do São Paulo em 2005, visitou o treino da Seleção
Mineiro, autor do gol do título mundial do São Paulo em 2005, visitou o treino da Seleção · Imagem: Source: ge.globo.com

Vinte anos depois, o clube sediado em Americana, a 120 quilômetros de São Paulo, que está na terceira divisão paulista, se agarra a uma frágil tábua de salvação para permanecer vivo – ou quase isso.

Atrito na venda de lateral da Seleção, suspeitas de fraude e crise ameaçam fechar clube paulista
Atrito na venda de lateral da Seleção, suspeitas de fraude e crise ameaçam fechar clube paulista · Imagem: Source: ge.globo.com

Sem dinheiro, com penhoras e suportado por uma Recuperação Judicial em que credores reclamam de atrasos e apontam suspeitas de fraudes, o Rio Branco avalia fazer uma parceria com a empresa que gere o futebol do Sertãozinho, da região de Ribeirão Preto, como publicou o ge há uma semana.

Marcos Senna, ex-Rio Branco, comemora com os companheiros de Espanha o título da Euro-2008 — Foto: Getty Images

Pelo acordo, ainda em negociação, o clube inicialmente cederia seus símbolos (como uniforme e distintivo) para que a empresa “se vestisse” de Rio Branco e jogasse a segunda divisão paulista no lugar do Sertãozinho – enquanto o Rio Branco “original” pediria licença da Federação Paulista de Futebol.

O clube alega que é a opção que resta – a outra é abandonar o futebol.

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O começo do fim

O Rio Branco demorou quase oitenta anos para chegar à primeira divisão de São Paulo, o que só aconteceria a partir de 1991. Os anos seguintes, porém, fizeram com o que clube se tornasse conhecido por suas revelações.

De Americana saíram jogadores como Flávio Conceição (Palmeiras e Real Madrid), Marcelinho Paraíba (São Paulo, Hertha Berlim) e Marcos Assunção (Palmeiras, Santos, Bétis), todos também com jogos pela seleção brasileira.

Foram 17 temporadas seguidas na elite do futebol paulista até o primeiro rebaixamento, em 2007. Depois de um breve retorno à primeira divisão, em 2010, a equipe desabou. Chegou a disputar a Bezinha, como é conhecido o degrau mais baixo do futebol de São Paulo, e hoje está na Série A-3.

A fábrica de talentos do clube minguou – o fim da Lei do Passe foi um golpe para clubes do tipo. As receitas caíram na mesmo toada. As muitas parcerias realizadas nos últimos anos deixaram mais problemas do que solução.

Estádio Décio Vitta, casa do Rio Branco — Foto: Anderson Lira/Ag. Paulistão

Há oito anos a equipe não disputa uma partida noturna em seu estádio, o Décio Vitta, por problemas no sistema de iluminação.

Em 2023, o Rio Branco requereu recuperação judicial – processo que permite a renegociação de dívidas de forma coletiva, com fiscalização da Justiça, e que evita a falência do clube. À época, eram 41 credores listados com direito a R$ 6,6 milhões.

Prioritárias, as dívidas trabalhistas somam R$ 664 mil e têm sido alvo de disputa no processo. O clube alega ter feito pagamentos num processo piloto, mas o Administrador Judicial considera que os documentos apresentados são insuficientes para essa comprovação.

A última joia

Já em crise, em 2016 o Rio Branco fez um acordo com ex-atacante Sandro Hiroshi, ele próprio cria do clube, para a administração das categorias sub-15 e sub-17. Receitas oriundas de direitos econômicos de atletas seriam divididos, 70% para a empresa de Hiroshi, 30% para o clube.

Dois anos depois, a última grande revelação do Rio Branco, descoberta por Hiroshi, se transferiria para o Grêmio: o lateral Vanderson, hoje no Monaco, e que esteve na lista de convocados de Carlo Ancelotti para amistosos contra Austrália e Índia, em setembro e outubro.

Vanderson foi convocado por Ancelotti na primeira lista depois da Copa — Foto: Rafael Ribeiro/CBF

O clube de Americana tinha 30% dos direitos do atleta quando o Grêmio vendeu o lateral ao Mônaco em 2011 por 11 milhões de euros (cerca de R$ 70 milhões na época). Uma parte do valor foi paga – e acabou dando início a suspeitas que ainda não foram esclarecidas e que fizeram o Ministério Público acionar a polícia.

Mas ainda há pagamentos atrasados que mantêm aberta disputa entre os clubes até hoje – e outra, entre o Rio Branco e Hiroshi, que também alega não ter recebido tudo o que lhe era devido. O ex-atacante e a empresa dele são dois dos maiores credores do clube.

A Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD) condenou o Grêmio, em junho, a pagar R$ 1,9 milhão ao Rio Branco. Em julho, porém, a equipe gaúcha conseguiu uma decisão que lhe permite o pagamento coletivo das dívidas na CNRD, o que inclusive levou a Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol a impor o chamado “transfer ban preventivo” ao Grêmio, que depende de autorizações do órgão para registrar atletas.

O Rio Branco, que prometia à Justiça usar esse dinheiro para pagar os credores trabalhistas, ficou sem saber, novamente, quando será pago pelo Grêmio. O plano aprovado pela CNRD é de parcelamentos por até 60 meses.

E quando esse dinheiro chegar, o clube paulista não receberá o valor total. Hiroshi acionou a Justiça em setembro com um pedido para que apenas 30% do valor, o correspondente à cota do Rio Branco, seja transferido à conta da recuperação judicial, e que os 70% restantes sejam pagos diretamente à empresa do ex-jogador. A liminar foi concedida, mas ainda é passível de recurso.

A empresa do presidente

Extratos bancários anexados ao processo mostraram movimentações entre as contas do Rio Branco e a de uma empresa chamada Manager – que, agora se sabe, tem como sócio o presidente do clube, Cláudio Bonaldo.

Valores que caíam na conta do clube quase que instantaneamente eram transferidas para a da Manager. Foi assim, por exemplo, em 16 de dezembro de 2024, quando o Grêmio depositou R$ 1,2 milhão e, na sequência, foram feitas três transferências para a Manager que somam exatamente R$ 1,2 milhão.

Em 20 de janeiro do ano seguinte, a mesma coisa: R$ 533 mil pagos pelo Grêmio, R$ 533 mil a caminho da Manager.

Mineiro, autor do gol do título mundial do São Paulo em 2005, visitou o treino da Seleção

Quando esses extratos foram anexados ao processo, em maio, chamaram a atenção da advogada de um ex-jogador do clube que tem cerca de R$ 60 mil a receber. Foi ela quem levantou a mão e iniciou os questionamentos.

Diante das evidências, o juiz Willi Lucarelli determinou uma auditoria no fluxo financeiro ligado à Manager. Um relatório produzido pelo administrador judicial deve ser apresentado nas próximas semanas.

As movimentações também entraram na mira do Ministério Público. Em setembro, o promotor Fábio José Moreira dos Santos informou ter requisitado à polícia civil a “instauração de investigação preliminar, objetivando apurar a eventual prática de atos fraudulentos no curso da presente recuperação judicial”.

Segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, ainda não houve a instauração de inquérito.

A suspeita é de que o Rio Branco usasse a Manager – instalada numa residência onde apenas o filho de Bonaldo foi encontrado quando um oficial de Justiça foi ao local para intimar o sócio da empresa – como “caixa paralelo”, longe dos olhos dos credores.

Outro episódio ligou alerta: recentemente, o clube fez uma campanha para doação de dinheiro nas redes sociais para que torcedores pudessem colaborar com a pintura das arquibancadas do estádio Décio Vitta. A chave pix, um e-mail do Rio Branco, levava a uma conta da Manager.

À Justiça, o clube negou irregularidades e afirmou que “em razão das dificuldades” passou a não ter condições de administrar a operação e que, assim, decidiu centralizar numa empresa todas as receitas e despesas do clube. “A Manager Serviços Administrativos Ltda. foi escolhida pelo Conselho Deliberativo por possuir o menor custo de administração”, completa a resposta dos advogados.

As relações familiares também incluem outro fato: um empréstimo feito por outra empresa, a Maximóveis, de R$ 887 mil. A companhia tem como sócio Gilson Roberto Bonaldo, vice-presidente do Rio Branco e irmão do presidente, Cláudio Bonaldo.

O negócio, que para credores carece de provas documentais, levou o juiz a determinar a apresentação dos contratos. O clube diz ter feito isso ao administrador judicial, que ainda está no prazo para concluir relatório.

Rio Branco x União Barbarense na terceira divisão de São Paulo — Foto: Christian Guedes | Comunicação RBEC

– Os contratos apresentados registram, entre outros elementos, a identificação das partes envolvidas, os valores mutuados, a forma de entrega por transferência eletrônica, a conta gestora indicada para recebimento, os prazos de devolução, remuneração pactuada e garantias previstas nos instrumentos – justifica o Rio Branco.

A reportagem do ge tentou contato com o presidente Cláudio Bonaldo, mas ele não atendeu as ligações ou respondeu as mensagens.

Recentemente, o Rio Branco também informou que está negociando a venda de um terreno “avaliado em valor superior a R$ 600.000”, valor que seria suficiente para quitar as dívidas trabalhistas. A proposta ainda não foi levada aos autos, como pediu o juiz.

Essas últimas manifestações do clube à Justiça apresentaram um novo personagem: o advogado Régis Villas Bôas Villela, que assumiu a defesa do Rio Branco no começo de outubro.

O Sertãozinho de Americana

Vilella já mantinha relações com a diretoria do Rio Branco antes de receber a procuração para representar o clube na recuperação judicial.

Em 15 de setembro, Vilella e Bonaldo estiveram na Federação Paulista de Futebol. Foram informar sobre planos de unir o Sertãozinho, do qual o advogado é sócio da empresa que gere o futebol da equipe da região de Ribeirão Preto, ao Rio Branco. A entidade precisa homologar qualquer mudança do tipo.

Sertãozinho em campo contra o Juventus-SP no quadrangular da A-2 — Foto: Sérgio H. / Juventus SAF

Primeiro, todos negaram o projeto.

Mas notícias sobre a possível fusão e o temor de que o negócio pudesse comprometer patrimônio do clube fizeram credores acionarem, novamente, a Justiça, que ordenou esclarecimentos.

E a intenção, negada dias antes, foi confirmada nos autos no início do mês.

A justificativa é de que o Rio Branco, sozinho, não suportaria os custos de disputar a Série A-3 mais uma vez. A conta prevê receitas “otimistas” de até R$ 480 mil e despesas que chegariam a R$ 1,8 milhão. Um enorme buraco financeiro para um clube já em frangalhos.

Na petição em que admite as conversas ao juiz da recuperação judicial, Vilella, na condição de advogado do clube, usa palavras difíceis para expor: sem um acordo, o futebol do Rio Branco morre.

– Sem capacidade de aporte para suportar os custos da Série A3 de 2027, sem comprometer o cumprimento do Plano de Recuperação Judicial, a ausência de parceria implicará no não comparecimento à competição e, por força dos regulamentos desportivos da FPF e da CBF, na desfiliação automática do clube, com perecimento definitivo como clube de futebol profissional.

A solução apresentada é o Sertãozinho. Do qual é sócio.

– A parceria com algum outro clube profissional é a única alternativa para ver preservada a participação do clube no Campeonato Paulista em 2027 sem arriscar a recuperação judicial e a própria sobrevivência da associação.

O advogado já tinha declarado sua intenção de levar o Sertãozinho a outra cidade em entrevista ao “Trivela”, no ano passado, por causa do desinteresse da cidade pelo time. À época, o time disputava o título da competição – seria campeão semanas depois –, mas com o estádio às moscas.

O Rio Branco, apesar da crise, ainda consegue levar torcedores ao estádio – o clássico local contra o União Barbarense foi o maior público da fase de classificação da terceira divisão neste ano, com quase quatro mil pagantes.

O plano apresentado à Justiça é de que o Sertãozinho se transferiria para Americana. O Rio Branco cederia temporariamente símbolos e uniformes para que essa empresa representasse o clube na A-2 de 2027 – já que a vaga está vinculada ao CNPJ da empresa que gere a equipe de Sertãozinho. O clube de Americana – com seu CNPJ – se licenciaria a Federação Paulista de Futebol.

O acordo não envolveria o patrimônio do Rio Branco, que o advogado estima em mais de R$ 100 milhões, e tiraria do clube todos os custos de disputar a competição.

Ele ainda afirma que em um “eventual contrato definitivo” o Rio Branco terá participação em uma SAF a ser criada pelo parceiro.

Vilella também foi procurado pela reportagem, mas não respondeu.

Rio Branco x Catanduva pela Série A-3 — Foto: Christian Guedes / Comunicação RBEC

O plano esbarra num obstáculo: o tempo.

Os clubes que vão participar das séries A-2 e A-3 do Paulista precisam apresentar seus documentos para licenciamento nessas competições até a próxima segunda-feira.

A Justiça autorizou o Rio Branco e o Sertãozinho a manterem as negociações em andamento, mas ressaltou que não há “autorização antecipada para alienação ou oneração de bens e direitos sujeitos ao controle judicial”. Ou seja: é possível que um acordo só possa ser assinado se passar pelo crivo do juiz da recuperação judicial.

Na última quinta-feira, o administrador judicial analisou a proposta e opinou ser favorável à parceria entre Sertãozinho e Rio Branco. Ele fez ressalvas, porém: disse que se baseia, por enquanto, nas informações iniciais que o clube ofereceu, com a promessa de que o acordo não irá alienar patrimônio do Rio Branco, e cobrou que as partes apresentem o contrato para que ele seja avaliado pela Justiça.

Uma outra opção discutida no clube é disputar a Série A-3 com jogadores das categorias de base. Isso impediria a desfiliação do Rio Branco. A mesma base que tornou o clube famoso anos atrás o manteria respirando. Ainda que por aparelhos.